Referências culturais a contribuir para manutenção do patrimônio histórico da Bahia mundo afora, com acolhimento respeitoso
Neste Carnaval, três dos blocos mais representativos da Bahia e do Brasil tiveram muito o que comemorar: a firmeza, a continuidade dos seus propósitos e a longa trajetória de resistência diante de tantas vicissitudes enfrentadas desde seus surgimentos.
Sagrados na folia momesca, os Filhos de Gandhy, o Ilê Aiyê e o Olodum desfilaram exuberantes nos circuitos festejando os seus aniversários de 75, 50 e 44 anos, respectivamente, mostrando que persistir é para os fortes, e que embora nesse trajeto possam existir vários percalços, o reconhecimento pelas boas ações e o resultado delas na sociedade é o que tem de mais gratificante.
Referências culturais e sociais no cenário brasileiro, e reconhecidos mundo afora, o afoxé Filhos de Gandhy e os blocos afros Ilê e Olodum foram não só aplaudidos e reverenciados, como mostraram, novamente – e dessa vez com mais visibilidade a qual sempre pleitearam – o quanto foram e são importantes para a manutenção de ancestralidade baiana , e brasileira, e para a luta antirracista no país, principalmente em Salvador, cidade mais negra fora de África.
Tamanha representatividade reverbera pelo Brasil e pelo mundo e nada foi mais justo neste Carnaval do que enaltecer os blocos afros e afoxés, dando um salto transformador da imagem do carnaval baiano e resgatando sua verdadeira história e construção social.
Afinal, se Carnaval é uma manifestação popular, o Gandhy, o Ilê e o Olodum são as caras da maioria do povo baiano.
Fundado por estivadores portuários de Salvador em 18 de fevereiro de 1949, o tapete branco formado pelo maior Afoxé do Carnaval da Bahia, comemorou os 75 anos a serem completados no dia 18 de fevereiro e fizeram uma homenagem a Caetano Veloso e à Tropicália.
Com o tema Beleza Pura, nome de uma música de Caetano, o Gandhy desfilou no domingo (11) no centro da cidade, no Circuito Osmar, levando a já conhecida mensagem de paz propagada por Mahatma Gandhi, o cheiro de alfazema e uma bela fantasia onde se destacou elementos ligados ao afoxé, como a pomba que resgata a tradição do manto branco e também simboliza a paz.
Como bloco, o afoxé surgiu na Bahia, mas como palavra, vem de longe e de séculos: significa ‘a fala que faz’ e tem origem nos povos iorubas, importante grupo étnico da África Ocidental. Entre as personalidades, nada mais nada menos que Caetano e Gilberto Gil no trio.
Já na segunda-feira (12) foi a vez do tapete branco passar pela Barra, transformando a Avenida Oceânica de paz só para cantar: “Olha o Gandhy aê!” O circuito Dodô, que há tempos era marcado por blocos de cordas e pagos, foi tomado pelo som dos tambores nas mãos dos alabês e pelo fino toque do agogô. “O Gandhy sempre é fenomenal. Uma energia contagiante. E sim, o que a gente gosta é a tradição: é de ver os filhos de Gandhy passar. E agora, também surge outra tradição, que é As Filhas de Gandhy. Por onde as filhas e os filhos passam, o caminho se encanta e se perfuma”, comenta a professora Cláudia Dourado, que sai nas Filhas enquanto seu marido, Mário, sai nos Filhos.
50 anos do Ilê
Cinquenta anos de glória não são cinquenta dias: Já o Ilê Aiyê, oficialmente homenageado pelo seu meio século de existência nesse carnaval, cujo tema foi Salvador Capital Afro, abençoou a festa com sua tradicional saída da Senzala do Barro Preto, sua sede, localizada no Curuzu, no sábado (10), às 20 horas, e depois se deslocou para Campo Grande, Eram 5h40 da manhã, mais ou menos, quando o repórter que vos escreve acordou com os tambores do bloco afro passando pela Avenida Sete, retornando para a Ladeira do Curuzu: das 20 horas à até o amanhecer, os tambores do Ilê não perderam a potência e ecoaram pelas ruas por onde passou todo o seu grito de liberdade, de luta por justiça social , pelo empoderamento das mulheres e contra o racismo.
Como todos os anos, o Mais Belo dos Belos provocou um tremendo zum zum zum na Liberdade.
“O Ilê é especial. Todo ano é uma emoção diferente. È lindo de se ver . A gente tá no aperto, tá no calor, tá no meio de uma ladeira inclinada e nada disso importa. Porque o Ilê é energia de amor, é energia de luta. É contagiante”, comenta ritmista Augusto Santos de Jesus, morador da Liberdade. No domingo, ao Ilê tocou na praça Castro Alves, em sintonia com o poeta abolicionista e voltou a desfilar na Barra levando sua felicidade, suas cores, sua mensagem e a beleza negra para um dos cenários que mais marcam o carnaval de Salvador para o Brasil e para o mundo. “é como diz a música: quem não curte não sabe negão o que está perdendo, É t5anta felicidade que o Ilê Aiyê vem trazendo”, acrescentou o ritimista.
Olodum: História, arte e cultura também marcam a trajetória do bloco Olodum, nascido em 1979, e que deu início às suas apresentações na sexta-feira (9), com um show no Pelourinho e logo em seguida partindo para o Campo Grande.
Se apresentou no Camarote. Com no sábado (10) e no dia 11, o bloco afro que ficou conhecido no mundo todo após se apresentar ao lado do rei do pop, Michael Jackson, partiu para o chão do carnaval baiano: se apresentou no circuito Dodô (Barra/Ondina) no domingo (11), e logo depois desse circuito de aproximadamente quatro quilômetros seguiu, com o mesmo pique do começo, para o palco no Largo da Mariquita no Rio Vermelho. Ontem (13), encerrou sua participação na folia de Salvador se apresentando no circuito Osmar (Campo Grande), no qual sese projetou e também se tornou um símbolo de resistência do povro negro no carnaval de Salvador. “O Olodum é Barra, é Salvador inteira, mas é o circuito Osmar, é o centro da cidade, assim como todos os blocos afros. Foi aqui que construímos quem somos hoje”, diz a vendedora de cosméticos Luciene de Araújo Souza.
Fonte: Tribuna da Bahia







