Olhos atentos, dedos em constantes movimentos e muitas histórias. Angelina Santos Cordeiro, a Tia Nem, tem 98 anos e não dispensa uma boa prosa.
Acostumada ao pioneirismo, ela foi uma das primeiras vereadoras da cidade de Cachoeira. “Nascida e criada” no povoado de Belém, a sete quilômetros da sede da cidade do recôncavo da Bahia, ela é símbolo de uma tradição que nesta época do ano transforma a cidade onde vive na capital baiana do licor.
Comerciantes de Cachoeira e de cidades vizinhas vão até o Belém para compra do licor que vai abastecer estoques de festas juninas da Bahia e até de outros estados.
Tia Ném aos 98 anos tem um dos licores mais tradicionais da cidade de Cachoeira — Foto: Eric Luis Carvalho/g1
O “licor de Tia Nem” é um dos mais famosos e tradicionais do recôncavo. Servido de norte a sul da Bahia, ele carrega um legado de mais de 30 anos. Mas o fabrico, que hoje é de cerca de 5 mil garrafas, nasceu como uma espécie de agrado para amigos e visitantes.
“Eu tive muitos filhos e eles ainda traziam os amigos para passar São João aqui. Aí eu ia fazendo licor e todo mundo achou bom, gostoso, e eu fui fazendo. Quando penso que não, eu estava no mundo do licor”, conta dona Nem, explicando o começo da tradição na sua família.
Outra marca registrada do licor da aposentada quase centenária é que ela não prova a bebida que leva seu nome.
“Eu não provo. Tem uma pessoa que prova e diz se está bom ou se não está”, conta.
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Licor de Tia Nem é um dos mais tradicionais da cidade de Cachoeira, na Bahia — Foto: Eric Luis Carvalho/g1
Apesar de não provar a bebida, Tia Ném destaca que o segredo do licor está em fazer com que o sabor escolhido tenha mais destaque do que o álcool.
“O licor precisa ter o sabor da fruta e não do álcool. Você precisa sentir o gosto da fruta. O licor não precisa ser forte. Tem que aparecer mais o sabor da fruta do que o álcool’, conta.
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Fabrico do licor é feito na área onde Tia Nem vive com a família — Foto: Eric Luis Carvalho/g1
Antes de curtir a aposentadoria se dedicando aos licores, Tia Nem trabalhou por mais de 50 anos como tabeliã do cartório de notas, que funcionou na casa onde mora até hoje. A área agora abriga o fabrico do licor.
Ela esteve à frente dos negócios até o começo de 2019, quando aos 94 anos, se aposentou do negócio, que passou a ter uma das filhas, Mariana Gouvea, à frente.
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Filha de ‘Tia Ném’, Mariana Gouvea é quem comanda o fabrico do licor da família atualmente — Foto: Eric Luis Carvalho/g1
Mas o dedo de Tia Nem segue no produto que leva seu nome. Ela ainda ajuda a criar sabores e misturas que resultam em novos licores. Para 2023, a aposta do fabrico da Tia Ném são os licores de jambo e de maçã com canela.
Paixão e pioneirismo
Se a entrada no ramo dos licores foi tardia, o mesmo não se pode dizer sobre a política na vida de Tia Nem. Nos anos de 1970, Tia Ném decidiu colocar em prática a boa prosa para ir além. Acostumada a fazer trabalhos sociais, viu na política a chance de ajudar a trabalhar para quem mais precisava.
O único empecilho era o fato de que uma mulher nunca havia ocupado o posto na Câmara de Vereadores da cidade. Tia Nem tratou de derrubar barreiras e chegou lá.
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Tia Ném foi uma das primeiras vereadoras da cidade de Cachoeira, na Bahia — Foto: Eric Luis Carvalho/g1
“Tinha eu uma outra (mulher), mas a outra deixou. Era eu e sete vereadores homens. Ia para todos os lugares. Eu era muito respeitada. Sou até hoje. A política é uma paixão”, conta empolgada, a aposentada, que chegou a ser candidata a vice-prefeita, mas não foi eleita.
“Quando eu chegava na campanha (de vice) o povo me dizia: ‘a senhora que devia ser a candidata (à prefeitura)’. Mas era meu colega, que me chamou para que eu fosse vice. Mas ele não era tão bem quisto”, explica para falar sobre a derrota.
Tia Nem ainda diz que teve outras derrotas no que chama de “vida pobre e muito vivida”. Mas é preciso pouco tempo de prosa para ver que o legado dos licores, dos filhos – os dela e os “dos outros criados juntos” – na casa recheada de fotografias, imagens de santos de sua devoção, e de cachorros confirmam o “bem viver” de uma mulher que fez história e já foca no centenário sem deixar de rir de tudo isso.
‘No (aniversário de) 100 (anos), se tiver, você já está convidado”, brinca com a reportagem, antes de posar para fotos com recomendações em meio a gargalhadas. “Só não mostra o dente banguelo” .
Fonte: G1 Bahia







