O autor ainda explica que sua intenção não era só fazer um livro de fotografias, mas um livro de protesto
A sensibilidade de um ribeirinho, que cresceu às margens do Rio São Francisco, está estampada nas páginas do livro “Enquanto Existe Azul”, obra do fotógrafo Carlos Barral, que será lançada para convidados, no dia 12 de fevereiro, às 18h, no Museu de Arte da Bahia, no Corredor da Vitória. Segundo o autor, o livro traz 105 imagens, sob curadoria de Diógenes Moura, que refletem anos de observação da natureza, e o evento de lançamento também será marcado por uma exposição de 45 telas, em diferentes dimensões.
Com olhar curioso e aguçado, em busca do reflexo do sol, em suas diversas cores, e de elementos naturais, Barral conta como a paciência é um atributo genuíno de sua arte, pois toda imagem nasce da espera, da concentração do olhar e da busca pelo ponto ideal do sol, a projetar seus efeitos caóticos sobre as águas. O autor recebeu a reportagem em sua casa e, por alguns instantes, revelou uma mostra do que o público poderá vivenciar a partir da próxima quarta-feira.
“Esse livro é uma catarse, porque eu nasci na beira do São Francisco, um rio que era lindíssimo, chamado o rio da integração nacional e o Nilo brasileiro. Eu vivenciei aquilo. Era um paraíso”, lembra o baiano, nascido em Bom Jesus da Lapa e que viveu sua infância e juventude no município de Carinhanha. Com 17 anos, Barral veio estudar em Salvador e ao retornar, em 2004, se deparou com uma pessoa atravessando o rio a pé, uma cena marcante que inspirou o livro e tantos versos que compõem a obra.
“Dedico esse livro ao Rio São Francisco, que ainda passa largo e profundo por dentro de mim”, escreveu o autor, que ao folhear sua obra, lembra do passado e explica que desde 1970 percebe a degradação do “Velho Chico”, como o rio é popularmente conhecido. “A minha vida foi o Rio São Francisco e esse negócio de o rio paralisar, isso é uma coisa que dói demais”, revela.
O autor ainda explica que sua intenção não era só fazer um livro de fotografias, mas um livro de protesto. “No livro, estou buscando a beleza para ver se sensibilizo as pessoas, porque está tudo se arrebentando e já podemos ver sinais do fim”, alerta Barral, que lamenta a postura do ser humano a destruir a natureza, em meio aos desafios climáticos que preconizam um cenário de colapso eminente.
“Enquanto Existe Azul” reúne um acervo de uma vida, de registros feitos na Bahia e em outros estados, como São Paulo, além de países como a França e o Vietnã. Os convidados que marcarem presença no evento de lançamento, poderão participar de uma sessão de autógrafos do livro e conferir, em primeira mão, a exposição, que estará aberta ao público, de 13 de fevereiro a 30 de março, das 10h às 18h, de terça a domingo.
Como destaca Barral, a escolha do local está alinhada ao seu objetivo de, além de despertar a reflexão do ser humano acerca da sua responsabilidade com a preservação ambiental, deixar um legado para a cidade. A decisão pelo Museu de Arte da Bahia consiste no investimento na infraestrutura do local, com recursos próprios, para que após a exposição a cidade desfrute de uma nova e moderna galeria de arte, com 200 m².
Quem prestigiar a mostra poderá conferir composições abstratas que parecem evocar as pinceladas de grandes mestres, ampliando a experiência do espectador e enriquecendo a cena artística nacional. “Quando fotografo a natureza, me entrego a sua desorganização luxuriante. A estética das minhas fotos é a estética da Natureza, da biodiversidade, de tudo que cai na terra ou nas águas e se transforma em adubo para renovar a vida, e do curso do sol, trazendo para as águas a sua paleta de cores. Meu foco são os detalhes do reflexo do entorno, dos movimentos das águas e do que resta do azul. Abracei fragmentos nas águas, como um único universo, o objetivo da minha foto. É sempre o todo pequeno de um pedaço, que enlouqueceu o meu olhar”, conclui Barral.
Fonte: Tribuna da Bahia







