Lourenço Mueller lança livro: “crítica, memória e desejo”

Para o autor, o livro é um gesto de liberdade: “Eu escrevo como quem respira…”

Com uma trajetória que transita entre a arquitetura, o urbanismo, a literatura e a crítica cultural, o escritor e professor Lourenço Mueller lança no dia 5 de junho, às 16h, no Museu do Mar Aleixo Belov, em Salvador, o livro Tudo tem a ver com Tudo: umas histórias e uma tese. Publicado pela editora Pinaúna, o volume reúne textos produzidos ao longo de mais de duas décadas – entre 2000 e 2024 – e propõe, segundo o autor, “uma travessia por diferentes linguagens”, sempre com a cidade como experiência sensível.
“Esse é um livro que se recusa a caber numa prateleira só. É literatura, mas também é crítica, memória, desejo, cidade. E é, sobretudo, uma conversa com o leitor”, afirma Mueller.
A estrutura do livro reflete esse espírito aberto. Dividido em quatro partes, ele transita entre o ensaio, a crônica, o conto, a crítica cultural e o pensamento acadêmico. “São textos que nasceram em lugares diferentes: jornais, blogs, cadernos pessoais, aulas, conversas. Eu costumo dizer que eles foram escritos de dentro da vida, não de fora. A escrita, para mim, sempre foi uma forma de viver mais intensamente”, diz o autor.
Na primeira seção, os artigos e ensaios revelam um olhar crítico e inquieto sobre o mundo contemporâneo. Salvador aparece como paisagem recorrente, mas a reflexão se amplia para o Brasil e o mundo. “Sempre fui mais colunista do que professor. Gosto da escrita que dialoga com o agora, com o que está pegando, que provoca. Tem uma crônica ali que escrevi depois de uma noite de insônia com o barulho da cidade. Outra, sobre um texto de Caetano. Outra ainda, sobre a destruição da paisagem urbana em nome do progresso. A cidade é personagem constante.”
Já a segunda parte apresenta um lado mais íntimo e literário. São narrativas curtas, em tom ficcional e autobiográfico, atravessadas pelo erotismo e pela memória. “O erotismo é uma chave para entender o mundo. O desejo move tudo. Eu não tenho medo de escrever sobre isso. Pelo contrário. Acho que a literatura brasileira, às vezes, ficou careta demais. O sexo está lá, mas domesticado. Eu prefiro o risco. Tem uma história no livro que é pesada, sim. Mas também é delicada. Fala do corpo como território, como linguagem”, diz Mueller.
O autor também comenta sobre o projeto literário que atravessa seus livros: “Há muitos anos venho rascunhando um romance. Talvez um dia ele ganhe forma de livro mesmo. Mas, por enquanto, ele aparece assim: aos pedaços. Um fragmento num livro, outro numa crônica, outro num texto de Facebook. Esse livro novo tem um trecho grande dessa narrativa maior, que fala de um personagem em trânsito entre cidades, entre desejos, entre tempos”
A terceira parte do livro apresenta a adaptação da tese de doutorado que Mueller defendeu na Faculdade de Arquitetura da UFBA em 2004, orientado por Pasqualino Magnavita. O texto original, revisto para o público não acadêmico, propõe uma leitura sensível e filosófica da cidade. “A tese se chamava Cidade Imanente. Era uma tentativa de pensar a cidade para além da funcionalidade, além da lógica do urbanismo técnico. Eu queria entender o que pulsa por baixo da rua, por trás da fachada. É um texto denso, sim, mas que fala de coisas que todos sentimos: a angústia urbana, a beleza inesperada, o caos cotidiano”, diz.
Mueller explica que não se sente confortável apenas com as categorias tradicionais do urbanismo: “Para mim, a cidade não é um objeto. É um sujeito. É um corpo. E mais do que isso: é um espelho. A cidade mostra quem somos – ou quem não conseguimos ser. A cidade deseja. A cidade sofre. A cidade fala. Mas só ouve quem está disposto a escutar de verdade”, destaca.
A quarta e última parte do livro é uma espécie de caderno de memórias e fragmentos. São textos mais curtos, que oscilam entre a poesia e a prosa, entre a evocação e a reflexão. “Gosto de escrever sem saber onde vai dar. Às vezes, começo um texto com uma imagem que me veio no banho ou numa caminhada. E deixo ela me levar. É assim que surgiram alguns desses textos. Eles são como postais de mim mesmo. Ou como ecos. Eu revisito cenas da infância, conversas com minha mãe, silêncios que ficaram. E tudo isso entra no livro, sem cerimônia.”
Para o autor, o livro é um gesto de liberdade: “Eu escrevo como quem respira. E não quero ficar escolhendo entre ficção, ensaio, tese, crônica. Tudo isso me interessa. Tudo isso me constitui. É por isso que o título é esse: Tudo tem a ver com Tudo. Pode parecer vago, mas não é. É uma tomada de posição. Eu acredito nas conexões improváveis, nos encontros fortuitos, nas sobreposições. E o livro é isso: um convite à deriva”
Autor – Lourenço Mueller, arquiteto, urbanista e escritor baiano, tem se destacado por uma produção literária que mescla crítica urbana, memória afetiva e experimentação formal. Sua série de livros mais recente é dedicada à Baía de Todos-os-Santos, explorando suas múltiplas dimensões culturais e históricas. O primeiro volume, Viva Kirimurê – Histórias da Baía de Todos-os-Santos (2023), apresenta narrativas que entrelaçam experiências pessoais e coletivas em torno da baía. Em seguida, lançou Kordel K: Baía de Todos-os-Santos et cetera (2024), uma antologia que reúne artigos, projetos urbanos, resenhas e reflexões, incluindo trechos sobre o navegador Aleixo Belov. O terceiro livro, Almanaque de Kirimurê: kanto, karta, konjecturas, konteúdos, kontos, konversas, krônicas (2024), é descrito pelo autor como um “bazar literário”, combinando cordel, crônicas, mini-biografias e artigos jornalísticos . Essas obras fazem parte de um projeto mais amplo de dez volumes, que o autor denomina, com humor e crítica, de “(tragi) comédia (des) humana”, em referência a Balzac.

 

Fonte: Tribuna da Bahia

 

 

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