Último adeus a Preta Gil: Brasil se despede da cantora em meio a homenagens

Preta deixou um legado que vai além da música. Tocou vidas com coragem, autenticidade e generosidade

O Brasil acordou em luto com a partida de Preta Gil, que faleceu no último domingo (20), aos 50 anos, em Nova York, vítima de complicações de um câncer colorretal. A artista, que travava uma batalha intensa contra a doença desde 2023, será velada no Rio de Janeiro, sua cidade natal. Em respeito a um pedido feito ainda em vida, seu sepultamento será em Salvador, cidade com a qual manteve laços profundos com familiares e amigos.

Preta deixou um legado que vai além da música. Tocou vidas com coragem, autenticidade e generosidade. De corpo e alma entregue à arte, à alegria e à luta, fez da própria existência um manifesto. Mulher preta, gorda, bissexual, empresária e artista de múltiplos talentos, Preta Gil desafiou padrões e ocupou espaços que lhe foram negados. Com voz firme e peito aberto, construiu uma trajetória pública e, ao mesmo tempo, profundamente íntima.

Filha de Gilberto Gil com Sandra Gadelha, Preta nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu parte da infância e juventude entre a capital fluminense e Salvador após a separação dos pais. A Bahia sempre teve lugar especial em seu coração. Foi aqui em Salvador que construiu afetos, laços culturais e espirituais, e onde desejou ser sepultada. O desejo será respeitado pela família.

A cantora estava em tratamento experimental nos Estados Unidos e planejava retornar ao Brasil quando sofreu uma piora súbita na última quarta-feira (16). Uma de suas melhores amigas, Carolina Dieckmann, revelou como foram os últimos dias da artista.

“Quando cheguei lá, a situação tinha mudado drasticamente, muito rápido. Nesses quatro últimos dias ela foi indo, sem dor, controlada pelos medicamentos e cercada de muito amor. Passei os últimos dias fazendo carinho nela e dizendo que a amava. Foi a gente debruçada sobre ela, amando profundamente. Ela não sentiu dor e estava com muito amor”, afirmou.

A também amiga Ju de Paulla, que cuidou de Preta nos últimos três meses em Nova York, compartilhou sua despedida comovente. “Larguei tudo no Brasil porque não teria lugar nenhum no mundo que eu quisesse estar que não fosse ao seu lado (…). Sua última palavra foi perguntando onde eu estava. Eu voltei, falei que tinha ido passar seu perfume pra ir pro Brasil e te esperava lá (…), e você piscou para mim. Falei que te esperava para comemorar meu aniversário hoje. Mas os planos mudaram no meio do caminho, não deu tempo”, escreveu.

Corpo como bandeira

Ao longo da carreira, Preta Gil fez muito mais do que cantar. Ela entoou liberdade, ancestralidade e identidade. Colocou seu corpo no centro do debate sobre padrões estéticos, racismo e gordofobia. Enfrentou ataques, foi julgada, mas nunca recuou. Tornou-se referência para milhares de mulheres que viram nela um espelho de coragem e verdade.

Preta foi ousada, amorosa, debochada. No Carnaval do Rio de Janeiro, arrastava multidões com seu Bloco da Preta e seu carisma inconfundível. Fora dele, falava de amor, maternidade, política e sororidade com a mesma intensidade. Seu nome virou sinônimo de autenticidade.

“Entendi que teria que lidar com opressões a vida inteira (…). Quando fui entendendo que corpo livre e amor próprio eram assuntos que precisavam ser discutidos em sociedade, fui me fortalecendo e entendendo que era só sobre o meu corpo. Era também sobre as pessoas que se sentiam representadas por mim”, disse Preta Gil à jornalista Luanda Vieira, no podcast Corre Delas.

Homenagens e comoção nacional

A morte de Preta Gil gerou comoção em todo o país. Milhares de brasileiros acompanhavam sua luta com esperança. Com todas as possibilidades de tratamento esgotadas no Brasil, Preta buscou alternativas experimentais nos EUA. Nas redes sociais, artistas, amigos e autoridades prestaram homenagens comoventes.

A cantora Ivete Sangalo falou sobre a caminhada de Preta e agradeceu por ter vivido uma vida com ela. “Que bom que a gente se encontrou por aqui. Me apaixonei por você no mesmo instante que nos encontramos. Foi fulminante e ainda é. Não consigo entender essas notícias sobre sua partida. A sua luz tão forte que mesmo com toda essa loucura nos fortalece. Você tão corajosa minha Pretoca, tão firme e valente. Ah, como eu vou sentir sua falta viu?! Te amo infinito. Siga meu amor, sem dores, sem tristeza. Siga em paz”, desejou.

Seu tio Caetano Veloso escreveu: “Pretinha se foi aos 50. Choro desde que soube. Ela era uma das pessoas mais queridas para mim, desde criancinha”. Ivete Sangalo destacou a força e o amor de Preta: “Que bom que a gente se encontrou por aqui. Me apaixonei por você no mesmo instante (…). Te amo infinito. Siga meu amor, sem dores, sem tristeza. Siga em paz”.

Daniela Mercury também a homenageou: “Inspiradora para todos nós, corajosa em todas as suas posturas. Ela e sua luta para viver me fizeram ter mais amor pela vida”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lamentou: “Preta seguiu espalhando a alegria de viver mesmo nos momentos mais difíceis de seu tratamento”.

A Prefeitura do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias. O local exato do sepultamento ainda não foi divulgado pela família Gil. Em Salvador, cidade que a cantora tanto amava, e por onde era imensamente amada, o silêncio do adeus é profundo. O amor, no entanto, permanecerá nos corações de todos que ela tocou.

Câncer colorretal: o desafio que Preta enfrentou até o fim

Preta Gil foi diagnosticada em janeiro de 2023 com câncer colorretal, um tipo de tumor que afeta o intestino grosso e o reto, sendo o terceiro mais comum no Brasil. A cantora passou por tratamentos como cirurgia, radioterapia, quimioterapia e terapias experimentais nos EUA.

Nos estágios iniciais, o câncer colorretal tem altas chances de cura, principalmente quando detectado por exames como a colonoscopia. No entanto, quando há metástase – como no caso de Preta -, a sobrevida é reduzida mesmo com tratamentos intensivos.

O diagnóstico precoce é fundamental para ampliar as chances de sucesso. Por isso, especialistas reforçam a importância de campanhas de rastreio e da atenção a sintomas como sangramento nas fezes, alteração do hábito intestinal e perda de peso sem causa aparente.

 

 

 

 

Fonte: Tribuna da Bahia

 

 

 

 

 

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