O Brasil amanheceu ontem diante de mais um capítulo sombrio envolvendo a exploração sexual de menores, revelando uma realidade que existe há séculos, mas que se torna cada vez mais explícita: a adultização infantil e a hiperssexualização de meninas e meninos. Especialistas apontam que esse fenômeno é intensificado pela lógica das redes sociais, onde algoritmos priorizam engajamento acima da dignidade humana.
A prisão do influenciador digital paraibano Hytalo José Santos Silva, de 27 anos, e de seu marido, Israel Nata Vicente, em São Paulo, chamou a atenção para o problema. Ambos foram detidos por ordem da Justiça da Paraíba, acusados de tráfico humano e exploração sexual infantil. A operação contou com o Ministério Público da Paraíba (MPPB), Polícia Civil, Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Rodoviária Federal e o Cyberlab da Secretaria Nacional de Segurança Pública.
Apesar do choque causado pelo caso, profissionais da área lembram que a adultização infantil não é novidade. Salomão Resedá, coordenador da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), alerta que muitos desses episódios acontecem de forma silenciosa dentro de casa. Ele lembra que “abuso sexual e outros tipos de violência praticados pelos próprios familiares muitas vezes ficam camuflados e silenciados. A sociedade precisa apertar o passo para enfrentar essa situação antes que seja tarde.”
No ambiente digital, os riscos são ainda maiores. Ana Emanuela Rossi, promotora de Justiça da Bahia e coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Criança e do Adolescente (Caoca), destaca que 95% da população entre 9 e 19 anos utiliza a internet, e 88% possui perfil em redes sociais, embora a idade mínima recomendada seja 16 anos. Ela ressalta que o Ministério Público da Bahia atua para prevenir violações e proteger crianças online, explicando que “é essencial que as famílias conheçam os riscos e acompanhem o uso da tecnologia pelas crianças, garantindo acesso seguro e evitando conteúdos nocivos que exponham práticas criminosas”.
A promotora também chama atenção para um tipo de exploração que passa despercebido por muitos. Crianças e adolescentes são alvo de criminosos que operam em plataformas de jogos
online, redes sociais e aplicativos, utilizando chantagem, ameaças ou induzindo-os a práticas de violação. “Existem criminosos que ingressam em plataformas de jogos e redes sociais para afetar crianças, chantageá-las e ameaçá-las. Esse tipo de exploração reforça comportamentos de sexualização precoce e pode gerar danos duradouros, incluindo ansiedade, depressão e baixa autoestima”, alerta Ana Emanuela Rossi.
A visibilidade que as redes proporcionam transforma a exploração em espetáculo, com crianças recebendo atenção, curtidas e até dinheiro em troca de comportamentos sexualizados. Salomão Resedá explica que “muitas vezes essas crianças veem nas redes sociais uma oportunidade de ficar famosas, de ganhar dinheiro, e isso pode trazer consequências danosas para elas e para a família como um todo. Danças, gesticulações e comportamentos sexualizados expõem as crianças de forma precoce e perigosa”, conta.
Luciana Reis, coordenadora do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA-BA), complementa que a hiperssexualização não afeta todas as crianças da mesma forma. “Meninas negras, em especial, são mais vulneráveis. Essa lógica se mantém nas redes sociais, e o lucro continua a justificar a exposição de vulnerabilidades. Precisamos de políticas públicas que garantam educação, proteção psicológica e acompanhamento familiar”, ressalta.
A coordenadora do CEDECA é enfática: “Não basta punir os exploradores. É preciso investir em programas de acolhimento, educação e suporte psicológico, garantindo que essas crianças possam reconstruir sua infância de forma saudável”, afirma. “A hiperssexualização infantil nas redes não é inevitável. Com acompanhamento, educação e políticas de prevenção, podemos reduzir riscos e garantir que a infância se desenvolva de forma saudável e protegida”, acrescenta.
Já o magistrado Salomão Resedá reforça que a atuação do Estado não é suficiente sem o engajamento da sociedade. “Toda a estrutura montada pelo Estado, se não houver mobilização social, poderá não surtir efeito. Pais, professores e vizinhos têm o dever de observar e denunciar indícios de violência, principalmente sexual, aos Conselhos Tutelares, que podem aplicar medidas de proteção”, afirma.
As consequências para crianças exploradas são graves. Rezedá detalha que os danos podem ser quase irreparáveis: “Sem sombra de dúvida, essas crianças vão desenvolver ansiedade, depressão e dificuldades de socialização. Os danos são terríveis e precisam de acompanhamento da família e do poder público. O Conselho Tutelar pode aplicar medidas de proteção, incluindo acompanhamento psicológico e ações junto aos pais em casos de negligência.”
Medidas de proteção: regulamentação das plataformas e cidadania digital
No âmbito da prevenção, Ana Emanuela Rossi detalha que o MP-BA implementou um plano de defesa da criança no ambiente digital, incentivando promotores a atuar preventivamente e promovendo campanhas de sensibilização. “Também atuamos na esfera protetiva, ingressando com ações para retirada de conteúdos que exponham de forma vexatória crianças e adolescentes, preservando sua integridade e intimidade. Além disso, estabelecemos parcerias, como com a Safernet, para implementar disciplina de cidadania digital nas escolas, prevenindo violação de direitos.”
Segundo a promotora, 11.158 estudantes em 15 municípios baianos já foram beneficiados pela disciplina de cidadania digital, com previsão de expansão para mais sete municípios ainda este ano. Ela reforça que a regulamentação das plataformas digitais, ferramentas de controle parental e conscientização de famílias sem acesso à tecnologia são essenciais. “É importante que as empresas retirem conteúdos nocivos imediatamente e controlem o acesso por idade, garantindo que crianças e adolescentes interajam de forma segura, sem comprometer seu desenvolvimento biopsicossocial”, afirma.
Luciana Reis destaca que, no ambiente digital, muitas crianças são invisíveis como cidadãs, mas hipervisibilizadas como objetos de consumo e exploração. “Precisamos de políticas públicas que garantam educação, proteção psicológica e acompanhamento familiar. Não basta punir os exploradores. É preciso investir em programas de acolhimento, educação e suporte psicológico, garantindo que essas crianças possam reconstruir sua infância de forma saudável”, alerta.
Para Salomão Resedá, a formação de novos profissionais da Justiça deve priorizar a proteção da infância. “Mesmo sobrecarregados, todos nós temos a obrigação de dispensar prioridade à criança e ao adolescente que necessitam da intervenção estatal. Cabe a todos zelar pela pérola mais preciosa do colar da vida, que são nossas crianças e adolescentes”, conclui.
Realidade em Salvador é vivenciada nas periferias e preocupa profissionais
Em Salvador, assistentes sociais acompanham famílias que vivem o drama da adultização infantil. Uma delas, que preferiu o anonimado, conta a história de uma adolescente de 15 anos, que deixou a escola, passa noites fora de casa e retorna apenas ao amanhecer ou no dia seguinte. A assistente social relata que a jovem utiliza maquiagem pesada, roupas diferenciadas e apresenta comportamentos típicos de adultos, inclusive relações sexuais com homens mais velhos.
A profissional descreve a angústia da mãe: “Ela teme que a adolescente esteja usando drogas e pede ajuda para interná-la em um abrigo, dizendo que não consegue dormir enquanto ela não volta para casa.” Segundo a especialista, muitas meninas são atraídas para ambientes de risco e, simultaneamente, enfrentam limitações da rede de proteção, que não consegue atender toda a demanda. “Além disso, há o medo das famílias de denunciar por represálias do tráfico.”
A profissional conta que a jovem, abordada em atendimentos, responde pouco, raramente se abre, mas demonstra interesse em atividades ligadas à estética, como um curso de mega-hair. “Muitas são vulneráveis, meninas que amadurecem de forma precoce e são atraídas para ambientes de risco, mas também tem as limitações estruturais da rede de proteção — onde unidades especializadas não conseguem atender a toda a demanda. Além disso, tem o medo das famílias de denunciar por represálias do tráfico”.
Para a especialista, é um retrato concreto de como a hipersexualização e a ausência de suporte eficaz deixam crianças e adolescentes à mercê de ciclos de violência, exploração e abandono, cenário que dialoga diretamente com o alerta levantado após casos como o de Hytalo Santos.
Fonte: Tribuna da Bahia







