Na sala de aula da Escola Municipal Senador Antônio Carlos Magalhães, na Avenida Vasco da Gama, em Salvador, o quadro branco reflete não apenas palavras e números, e, sim, histórias de recomeço. As carteiras, ocupadas por jovens, adultos e idosos, guardam trajetórias marcadas pelo tempo, pela luta e, sobretudo, pela vontade de transformar o destino por meio da educação.
Entre os 60 alunos da instituição está Aelson de Jesus, de 66 anos, morador do Engenho Velho da Federação. Aposentado, pai de uma filha e avô de dois netos, Aelson carrega uma história como a de tantos brasileiros que não tiveram acesso à escola na infância. “Eu nem sei se posso dizer que voltei a estudar, porque na verdade eu nunca comecei. No meu tempo, minha família era muito pobre e eu não tive escola”, lembrou.
Natural de Conceição do Almeida, no Recôncavo baiano, Aelson começou a trabalhar aos 12 anos e passou boa parte da vida sem saber ler ou escrever. Há dois anos, decidiu voltar a estudar, movido pela vontade de aprender e pela admiração que sempre teve por quem sabe escrever. “Eu acho bonito quando uma pessoa pega uma caneta e escreve alguma coisa. Aprendi a ler na rua, indo ao supermercado. Foi desse jeito que fui aprendendo”, contou.
Segundo ele, seu retorno foi cercado de emoção. “O primeiro dia de aula foi maravilhoso. Tudo era novo para mim, e todo mundo me acolheu. Vi que estava no lugar certo”, recordou. Hoje, Aelson diz enfrentar certas limitações da idade, além do desafio de reativar a memória, mas não perde o entusiasmo: “Quando a gente chega a uma certa idade, a memória já não funciona como antes. Mas eu estou aprendendo e isso me dá alegria. Mudou minha vida. Antes, eu teria vergonha de dar uma entrevista. Agora já me soltei mais”.

Foto: Jefferson Peixoto / Secom PMS
Na mesma escola, outra história de superação é a de Edileusa Conceição da Silva, de 53 anos, que trabalha como babá e mora no Engenho Velho de Brotas com o marido, que trabalha como pintor. Mãe de quatro filhos, ela tenta conciliar o trabalho em regime de plantão com a rotina escolar. “Trabalho dois dias na semana e folgo dois. por causa disso, não consigo vir sempre, porque durmo no trabalho, mas eu não quero desistir”, disse.
Edileusa interrompeu os estudos ainda jovem, aos 19 anos, quando se tornou mãe. “Não dei muita importância aos estudos naquela época. Fiz até a quinta série e depois parei. A vontade de aprender mais e de mudar minha vida me fez voltar. Esta maturidade só veio depois de mais velha”, admitiu.
PERSISTÊNCIA – De acordo com ela, o recomeço também veio acompanhado de cansaço por causa das tarefas do dia a dia e de muitos desafios. “Às vezes, saio do trabalho sem vontade de ir para a escola, mas penso no quanto quero aprender, no quanto quero fazer a diferença. Mesmo cansada, eu vou”, contou. No entanto, para ela, o apoio dos professores faz toda a diferença: “Eles têm muita paciência. A gente pergunta, e eles explicam de novo. Nos deixam bem à vontade”.
Apaixonada por matemática, Edileusa sonha em, um dia, poder ajudar outras pessoas a aprender. “Já pensei em várias coisas, mas uma delas é ser professora. Eu gostaria de ensinar”, afirmou. Assim como Aelson, ela também enxerga na sala de aula um espaço de acolhimento e igualdade. “Motiva saber que posso conversar com meu filho e com meu neto de igual para igual. Quero que eles se orgulhem de mim”, declarou.
As histórias de Aelson e Edileusa se cruzam na mesma busca: a de uma vida com mais conhecimento, dignidade e autoestima. O que os move é o mesmo sentimento que impulsiona milhares de alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Salvador: a certeza de que nunca é tarde para aprender.
Para Aelson, o maior aprendizado é não parar, nem se deixar abater pelos obstáculos que a vida impõe. “A gente tem uma máquina muito importante na cabeça, que é o cérebro. Se deixar parada, enferruja”, disse. “Nada vem fácil, mas se a gente parar, não chega a lugar nenhum. Tem que continuar, independentemente das dificuldades”, completou Edileusa.
Fonte: Tribuna da Bahia







