Mais da metade dos brasileiros não lê livros, aponta pesquisa

A Bahia apresenta percentual de 42% da sua população declarando que leu total ou parcialmente pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa, atrás apenas dos estados nordestinos do Ceará (54%), Pernambuco (46%) e Maranhão (45%)

Dados da 6ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), apontam que mais da metade dos brasileiros não lê livros: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro (impresso ou digital) de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa. O estudo, divulgado nesta terça-feira (19), revela que o país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos.

O cenário retratado reflete o comportamento do leitor brasileiro e, conforme o levantamento, a redução da prática de ler aparece em todas as classes, faixas etárias e escolaridade. E a região Nordeste reúne os estados com os percentuais mais baixos de leitores (43%), uma redução de cinco pontos em relação a 2019.

Por sua vez, a Bahia apresenta percentual de 42% da sua população declarando que leu total ou parcialmente pelo menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa, atrás apenas dos estados nordestinos do Ceará (54%), Pernambuco (46%) e Maranhão (45%). Ainda na região, os priores resultados estão com o Rio Grande do Norte (33%), Piauí (37%) e Paraíba (38%).

O escritor Marcos Cajé contesta os resultados, afirmando que sua experiência de promoção da literatura afrofantástica e afroafetiva revela um panorama potente e significativo no Nordeste, no que tange à leitura. “Não concordo com essa pesquisa que nós nordestinos estamos nesse local. Eu acredito que a Bahia é um cenário de leitores incríveis, em todos os sentidos, em todas as classes”, afirma, destacando o poder transformador da literatura.

Mestre em História da África da Diáspora e dos Povos Indígenas e consultor literário, Cajé cita exemplos de bibliotecas na periferia de Salvador e destaca eventos realizados na Bahia e em Pernambuco, que têm encantado jovens e os aproximado dos livros. Ao refletir sobre os dados do estudo e sobre possíveis motivações para tais achados, o autor cita a derrocada das tradicionais livrarias e aponta a ausência de acervo que atenda às demandas do leitor.

“As crianças e os adolescentes querem livros que trate das suas realidades, que falem das suas linguagens. As crianças querem uma literatura que elas consigam se inserir dentro desse universo. Então, por exemplo, quando a gente fala de literatura infantil, onde é que está a literatura negra? Onde está o protagonismo negro, o protagonismo afroindígena e o indígena? Porque a gente tem que perceber que nós temos uma população, aqui na Bahia, de 84,7%, onde as pessoas negras, pretas e pardas se identificam como tal. E a gente sabe que a maioria dos livros que vêm para as escolas públicas ou que são divulgados através das redes sociais, são literaturas que trabalham com protagonismo do branqueamento, do eurocêntrico. Essas crianças negras querem se ver nesse lugar”, defende.

Tal leitura está alinhada ao pensamento da escritora Palmira Heine, que acredita que dentre os possíveis caminhos para estímulo ao hábito de leitura, está o incentivo à leitura desde a infância, com a oferta de livros que tratem de questões interessantes, com elementos atuais e que encantem o leitor.

Crianças e adolescentes são um ponto focal importante, quando o assunto é estímulo ao hábito da leitura. Isso porque o estudo destaca que a faixa etária de 11 a 13 anos é a que apresenta o maior percentual de leitores e que a leitura motivada pelo gosto diminui quanto maior a faixa etária dos indivíduos: entre as crianças de 5 a 10 anos, 38% dizem ler por esse motivo; já durante a adolescência e até os 24 anos, esse índice varia de 31% a 34%.

Segundo Heine, a promoção de eventos e políticas públicas que oportunizem o acesso e a circulação de livros para diversas camadas sociais é fundamental. “O cuidado com as bibliotecas e a promoção de ocasiões para visita a essas instituições é fundamental”, destaca, citando ainda as redes sociais como ferramentas potenciais de divulgação de resenhas de livros, vídeos de booktubers e até de livros digitais.

Porém, as bibliotecas não são o local mais frequentado pelos praticantes da leitura. De acordo com a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, quando perguntados sobre os lugares onde costumam ler livros, a grande maioria cita a própria casa (85%). “Mas é preocupante notar como as salas de aula estão deixando de ser um lugar de leitura, conforme a série histórica demonstra”, comenta a coordenadora da pesquisa, Zoara Failla.

Para a pedagoga Roberta Cruz, que coordena o Ensino Fundamental II, em uma escola privada do bairro da Boca do Rio, em Salvador, mudar este cenário é um desafio que exige a criação de oportunidades. A professora cita uma iniciativa realizada em outra instituição de ensino que trabalhou, cuja formatura dos alunos alfabetizados era marcada pela apresentação de livros escritos por eles, um projeto intitulado “Pequenos autores, grandes escritores”.

Por sua vez, Marcos Cajé afirma que para mudar a realidade apresentada pela pesquisa, o caminho é uma literatura que trabalhe com a diversidade (com protagonistas negros, indígenas, quilombolas e com deficiências) e com tecnologia. “A literatura também pode trazer a tecnologia como forma de suporte, trazendo QR Code, música, ilustrações para colorir, uma sequência pedagógica”, sugere.

Sobre as quase 7 milhões de pessoas que teriam deixado de ler no país, Cajé considera que se trata de uma população em busca de uma nova perspectiva de literatura. “A gente quer uma literatura que trate dos nossos corpos, que traga a beleza do cabelo preto, do homem preto, da mulher preta, que traga a afetividade do pai para o filho”, complementa.

 

FONTE: Tribuna da Bahia

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