De acordo com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) , existem atualmente registrados na capital 208 brechós
Espaços importantes para a economia circular e criativa, os brechós conquistam cada vez mais espaço em Salvador e na Bahia, oferecendo roupas e acessórios de marca com qualidade, design, estilo, exclusividade e preços mais baixos do que os encontrados em estabelecimentos tradicionais.
Diferentemente das lojas de departamento e shoppings, os brechós oferecem peças únicas, cuidadosamente selecionadas, como em uma curadoria, e se consolidam como uma cultura em ascensão na cidade, presentes tanto em bairros populares quanto nos nobres. O pequeno negócio tem se mostrado um bom exemplo de empreendedorismo, geração de renda e emprego, mas também de redução de impactos ambientais.
De acordo com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) , existem atualmente registrados na capital 208 brechós, ou, como especifica a entidade, pequenos negócios do comércio varejista de artigos usados. O número vem de uma crescente desde 2018, quando eram apenas 109. Na Bahia, este número atual é de 479, quase o dobro de 2018, quando existiam 265.
A produtora de moda Ju Ferreira, dona do Club Brechós, é um dos exemplos de sucesso desse tipo de micro empreendimento na capital baiana. Com seu espaço há mais de dois anos localizado no Jardim Brasil, na Barra, ela conta que o negócio foi a melhor escolha que fez para aliar geração de renda à sua paixão pela moda. Além da clientela comum, que vai em busca de peças bonitas, há ainda o nicho do mercado audiovisual, por exemplo.
“Aqui, por exemplo, pode encontrar peças de R$ 39 a R$ 500. É vantagem para todos. Eu vejo o brechó em uma crescente. Quando comecei, o movimento era tímido. As pessoas achavam que era uma loja e perguntavam se não tinha peças de tamanhos diferentes. Hoje isso mudou. O brechó é procurado por todos, inclusive, por produtores que atuam na moda e no mercado de audiovisual,”, conta Ju, que tem o perfil @club.brechos no Instagram.
Conforme o Sebrae, a média de novas empresas desse segmento em Salvador, entre 2015 e 2025, foi de nove por ano, e 17 por ano no estado. Para Ju, no entanto, o sucesso vai além da renda: é preciso gostar e se divertir com a moda de forma sustentável, compreendendo a reutilização de roupas e acessórios. Saber garimpar e ter uma boa rede de contatos é fundamental.
Circular – Os brechós são uma economia circular porque promovem a reutilização de roupas, o que ajuda a reduzir o impacto ambiental e a demanda por novas produções. “É uma economia criativa e circular. Todo mundo tem peças de roupa que estão paradas e que foi investido um valor. Quando você leva para um brechó, está fomentando a economia. Eu compro suas peças e depois eu vendo as suas peças. E essa peça vai servir para outra pessoa. Esse giro é muito interessante e a natureza agradece”, comenta a dona do Club Brechós, na Barra.
“Sempre me preocupei em fazer uma boa curadoria, pois quem frequenta brechós tem bom gosto e busca peças únicas e diferentes. As pessoas também têm interesse em vender o que está parado em seus armários. Quando você inicia esse movimento, as coisas fluem. Acredito que esse mercado tem tudo para crescer ainda mais, oferecendo exclusividade e qualidade com preços que não são encontrados no mercado”, acrescenta.
Sustentável – Mais do que um simples negócio, pode-se dizer que os brechós carregam uma filosofia que confronta a indústria da moda, tida como poluente no mundo todo e responsável por grande parte dos resíduos têxteis. Segundo uma pesquisa do Boston Consulting Group, 70% dos compradores em brechós afirmam gostar do fator sustentável, o que mostra que a conscientização ambiental está impulsionando o crescimento desse mercado.
Ju Ferreira diz que encontrou na sua paixão pelo brechó uma forma de não colaborar com o que hoje se chama Fast Fashion: modelo de negócios que prioriza a velocidade, o baixo custo, a mão-de-obra barata e o descarte inadequado.
“Para quem quiser abrir um brechó, o segredo primeiro é gostar. Eu digo que o brechó é a minha cachaça. Eu adoro a curadoria. O brechó tem essa funcionalidade, você vem e encontra peças que não serão encontradas em nenhum lugar mais. Cada roupa aqui tem uma história”, pontua.
“O Gueto é um Luxo”, no Nordeste de Amaralina, empodera moradores
Os brechós também estão ganhando os bairros populares de Salvador. É o caso do “O Gueto é um Luxo”, existente desde 2012 no Nordeste de Amaralina, tendo à frente a styling Ludmila Guimarães e sua irmã Fernanda Andrade. O perfil no Instagram é @guetoeumluxo.
A criação do espaço surge com a junção da bagagem das irmãs. Nascidas no Nordeste, Fernanda é da arte, da dança e da música, enquanto Ludmila tem atuações com produção de moda em jornais, televisões e audiovisual. O nome do brechó foi uma forma de homenagear o bairro e empoderar os moradores.

“A gente vivencia até hoje o preconceito com o bairro, pois a mídia presta mais atenção na parte negativa do que na parte positiva. Então a gente chega com essa ideia de homenagear o bairro. ‘Olha, aqui é um luxo, o gueto é um luxo, temos muitos artistas, muitas pessoas que lutam para se formar, para estudar, para trabalhar, para crescer”, conta.
Ludmila afirma que o brechó gera uma boa renda, mas como muitos outros, encontra barreiras na ideia obsoleta de que todos os produtos nesses espaços devem ser mais baratos. “O Brechó é uma empresa como qualquer outra. Então é preciso que as pessoas tenham essa noção de que nem sempre é possível a gente vender peças tão baratas, tão abaixo do mercado”, explica.
Segundo ela, muitas pessoas desinformadas tem desconfiança por causa da localização. “Muita gente se espanta quando chega e vê que temos uma boa estrutura e curadoria no Nordeste de Amaralina. O bairro é muito cultural, boêmio e com grande diversidade. Inclusive trazemos isso no conceito do brechó. Temos collab com alguns estilistas e também com amigas que criam óculos, eco-bags. A gente ultrapassa a questão do brechó, das criações”.
Sika Caicó: identidade visual e modo de ver a vida
Dona da produtora de moda Supernova, Sika Caicó, conhecida em Salvador pela atuação em diversas áreas, desde campanhas publicitárias e políticas às produções audiovisuais, afirma que o brechó se tornou uma forma de trabalho rentável em sua vida quando, ainda muito jovem, passou a entender a moda como uma forma de se expressar com o mundo.
“Quando menina, sempre gostei de moda e busquei roupas que falassem sobre o que eu pensava e queria da vida. Só que eu não tinha dinheiro pra bancar isso. Quando eu descobri o brechó foi no meio alternativo do rock, que já tinha essa cultura de roupas diferentes no lugar de lojas de departamento, que eram sempre mais do mesmo”, conta.

A partir dessas experiências que moldaram sua personalidade e identidade visual, ela despertou o interesse em trabalhar na moda. “Percebi isso porque eu gostava de mexer com roupa, de comunicar através dela, de me vestir diferente de uma forma que as pessoas elogiavam. Quando eu comecei a trabalhar com moda, decidi que meu objeto de trabalho era roupa. Então eu comecei a criar meu acervo pessoal que hoje é o acervo da produtora Supernova”, conta.
Através de suas vivências em brechós e bazares, Sika começou a fazer sua curadoria específica para determinados trabalhos. “Na época já trabalhava com publicidade, estava começando a trabalhar com figurino para publicidade de foto e eu precisava de algumas roupas que eu não tinha, e na época comprar em shopping era inviável”, relata.
Para a produtora, a economia circular proporcionada pelos brechós é fundamental e tem sido colocada em prática. “Hoje Salvador conta com uma cartela grande, com curadorias boas, que era difícil de achar antigamente. E tem tido público para isso. As pessoas têm consumido muito porque a consciência tem que vir em algum momento”, conclui.
“Roupa de defunto” – Muita gente tem preconceito com brechó por achar que é só “roupa de defunto”. Caicó explica: “Roupa nunca sai de moda. Se ela passar agora, lá na frente ela volta. Por isso tem funcionado bem a moda circular”, diz.
Fonte: Tribuna da. Bahia







