Atualmente abandonado, sem cadeiras e sem cortinas, o grandioso prédio ainda chama atenção de quem passa pela Rua Thales de Freitas
Outrora lugar de noites gloriosas e espetáculos suntuosos para a época – entre 1940 e 1980 -, o antigo Cine-Teatro ICEIA, no bairro do Barbalho, atualmente é mais um espaço cultural de Salvador que ficou na memória afetiva da população, guardando recordações e histórias de vida de diversas gerações.
Atualmente abandonado, sem cadeiras e sem cortinas, o grandioso prédio ainda chama atenção de quem passa pela Rua Thales de Freitas: considerado uma das obras da arquitetura moderna na Bahia, permanece com sua fachada branca, com janelas e painéis envidraçados verticais e suas jardineiras em colunas, demonstrando a inspiração trazida de Bauhaus, a famosa escola de arte vanguardista na Alemanha.
No entanto, a beleza da edificação se esvai à medida em que o observador desce os olhos ao chão: na entrada por onde passaram grandes artistas, como Elis Regina, em 1978, o que se encontra é sujeira, mato, cheiro de urina, garrafas de bebidas vazias e uma poça de água poluída. Um cenário muito diferente do glamour vivido no equipamento cultural construído entre julho de 1937 e 1939 como parte do conjunto de prédios do Instituto Central de Educação Isaias Alves (ICEIA) – um projeto considerado ‘vanguardista’ por pensar educação aliada à arte, música e cultura.
“Quando Salvador fez 400 anos, eu era adolescente e meu pai me levou ao Teatro do ICEIA, imponente naquela época, para assistir O Auto de Graça e Glória da Bahia. Não me lembro do espetáculo, mas me lembro de como eu estava vestida. Pode?”, conta, aos risos, enquanto remexe nas lembranças, a aposentada Letícia Lopes, 89 anos, que foi professora primária do ICEIA e de Música da Escola Getúlio Vargas. “Anos depois, o Teatro voltou a fazer parte da minha história, porque eu ensinava música na Escola Getúlio Vargas, anexo ao ICEIA, e fizemos muitas apresentações ali”, continua.
O teatro já teve capacidade para 1,3 mil pessoas, sala de exposição, quatro camarins, salas de coxias e palco de projeção. Foi responsável pela primeiras apresentações de Elis Regina em solo soteropolitano, durante nove dias seguidos, o primeiro em 20 de julho de 1978, e recebeu espetáculos como a ópera Rei Brasil 500, show da cantora Daniela Mercury, entre outros. Na estrutura, se realizavam shows, peças teatrais, formaturas e eventos escolares, recebendo pessoas de todas idades.
Junto com o teatro, o ICEIA era considerado uma escola modelo nas décadas passadas. “A Escola pra mim não era um trabalho. Era uma terapia, onde eu me realizava. Era uma escola modelo, em todos os sentidos. Eu amava meus alunos, minhas colegas”, relembra Letícia Lopes. Quando procurada para falar sobre sua vivência no espaço cultural, não hesitou em afirmar: “Coincidência, que ainda esses dias eu falava do descaso de um Teatro tão suntuoso estar naquele estado”, remendou.
Moradores se juntam para limpar entrada do teatro
A situação na entrada exclusiva do Cine-Teatro ICEIA, na Rua Thales de Freitas, chegou a tal ponto que levou moradores e trabalhadores da região a unirem forças para amenizar a situação. Morador do Barbalho, Marcos Roberto Jesus dos Santos, há trinta anos tem uma venda de verduras e frutas no local e conta que, junto com outros trabalhadores, retira o excesso de folhas e mato. “Nunca vi o teatro aberto como teatro, com show e espetáculo. Vez ou outra algum estudante aparece, mas nada demais. Podia funcionar ajudando os jovens, dando ocupação, com oficina para crianças e adolescentes”, opina.
“Os moradores tiram a água que vira essa poça que está vendo aí. Utilizamos uma bomba particular, que joga água para fora. Fizeram uma boca de lobo muito pequena, colocaram para drenar pra dentro do teatro, mas enche muito e a água recua”, comenta Silvestre Reis da Silva, também dono de uma banca na rua Thales de Freitas.
Procurada, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC-BA), enviou nota informando que “já está em elaboração o projeto para modernização da unidade escolar, contemplando a requalificação do teatro, com projeto de acústica, iluminação, climatização e acessibilidade”.
Conforme a secretaria, o projeto contempla, também, a requalificação das áreas da unidade escolar para implantação de restaurante estudantil, piscina, quadra coberta, arquibancada, climatização, acessibilidade em todos os ambientes do prédio escolar e construção do campo Society. Vale ressaltar,que essa não foi a primeira promessa de revitalização do teatro do ICEIA. A data em que ele parou de funcionar definitivamente, ninguém sabe informar ao certo, mas dizem que foi pelo comecinho da década de 90.
Fonte: Tribuna da Bahia







